"Peço Perdão ao Povo Brasileiro": A Crise sem Precedentes que Ameaça Mudar o Judiciário

Por: Dayse Berenice Espinosa Griebeler/Jornalista e Advogada

17/09/2026

Em meio a discussões acaloradas, acusações mútuas e um clima de forte tensão institucional, o Supremo Tribunal Federal (STF) vivenciou um dos momentos mais delicados de sua história recente. A crise, alimentada por desavenças pessoais, divergências sobre investigações e controvérsias em torno de contratos de assessoria jurídica, culminou em um raro e marcante pedido de desculpas feito por uma das integrantes mais antigas da Corte ao povo brasileiro durante sessão plenária.

 

A magistrada expressou profundo incômodo com o rumo dos debates e admitiu vergonha diante do tom adotado pelos colegas. Em sua fala, ressaltou que o papel fundamental do Judiciário é garantir a estabilidade e a segurança do país, e não gerar intranquilidade ou criar um "espetáculo" para a opinião pública. A juíza lamentou não ter conseguido intervir para acalmar os ânimos e pediu perdão aos cidadãos por não ter entregue uma postura à altura das expectativas da sociedade.

 

O episódio reflete o ápice de um racha que vinha se desenhando nos bastidores. O foco principal dos trabalhos acabou desviado por trocas de farpas, questionamentos sobre procedimentos internos e suspeitas envolvendo a atuação de escritórios de advocacia ligados a familiares de magistrados em grandes disputas financeiras. A exposição pública desses atritos gerou críticas severas de especialistas, que apontam o desgaste da imagem do Tribunal e a perda de seu papel de arbitragem técnica.

 

A reação aos bate-bocas já repercute fora do Judiciário. No Congresso Nacional, parlamentares ganham força para avançar com propostas que buscam impor limites às decisões individuais dos juízes e criar mandatos com prazo fixado para futuros integrantes da Corte.

 

 O Congresso Nacional pretende acabar com os mandatos vitalícios no STF

 

As principais mudanças em discussão no Congresso agrupam-se em cinco frentes centrais:

 

1. Limitação de Decisões Monocráticas (Individuais)  

Fim das decisões liminares isoladas: Propostas como a PEC 8/2021 proíbem que um único ministro suspenda a eficácia de leis aprovadas pelo Congresso ou atos dos presidentes da República, da Câmara ou do Senado por meio de decisão liminar individual. Apenas o plenário do STF (ou o colegiado) teria poder para sustar atos constitucionais.

 

Prazos para pedidos de vista: Limitação do tempo que um ministro pode reter um processo antes de devolvê-lo ao plenário.  

 

2. Criação de Mandatos Fixos para Ministros

Fim do cargo vitalício até os 75 anos: Estão em pauta propostas (como a PEC 16/2019 e propostas recentes de parlamentares) que estabelecem mandatos por tempo determinado para futuros integrantes da Corte — variando entre 8 e 10 anos, sem direito a recondução imediata.

 

Observação: As mudanças valeriam apenas para novas indicações, sem afetar retroativamente os atuais ministros.  

 

3. Alteração da Forma de Escolha das Vagas

Descentralização das indicações: Atualmente, o Presidente da República possui exclusividade na indicação. Há projetos que propõem alterar o modelo, distribuindo as indicações de novas vagas entre o Poder Executivo, a Câmara dos Deputados, o Senado e órgãos de classe (como a OAB ou a magistratura).  

 

4. Poder de Veto do Congresso sobre Decisões Judiciais (Mecanismo de "Sustação")

Derrubada de julgamentos pelo Legislativo: Propostas mais radicais (como a PEC 50/2023 ou a EC 28/2024) tentam autorizar o Congresso a derrubar decisões do STF por maioria qualificada caso os parlamentares entendam que o Tribunal extrapoliu suas competências constitucionais ou invadiu a prerrogativa de legislar.

 

5. Ampliação de Crimes de Responsabilidade e Regras Éticas

Facilitação do Impeachment e Conflito de Interesses: Projetos que pretendem tipificar com mais clareza novos crimes de responsabilidade para magistrados (incluindo o desrespeito a prazos regimentais, manifestações públicas indevidas sobre processos e atuações sob conflito de interesse de parentes).

 

Prazo fixo no Senado para análise de Impeachment: Definição de prazo obrigatório para que a Mesa Diretora do Senado delibere sobre denúncias formuladas contra ministros do Supremo.  

 

Qual o cenário real de aprovação?

 

Propostas voltadas à restrição de decisões monocráticas e fixação de mandatos para os futuros ministros são as que possuem maior apelo técnico e suporte transversal entre diferentes partidos. Já textos que tentam dar ao Congresso o poder de cancelar julgamentos do STF enfrentam graves ressalvas jurídicas por violar a cláusula pétrea de Separação dos Poderes (Art. 2º da Constituição) e tenderiam a ser anuladas pela própria Corte se fossem aprovadas.

 

Diante do cenário de forte desgaste, o Supremo enfrenta agora o desafio de recuperar sua autoridade moral e a confiança da população, em um momento em que a imagem da maior instância da justiça brasileira sai profundamente arranhada.